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31/12/2007 05:46
O menino que dormia de camiseta
Ele dormia de camiseta. Mesmo no verão. No calor das madrugadas regadas a gim, ainda assim ele dormia de camiseta. Eu não entendia muito bem o significado. Seria censura dos sonhos escondidos na profundeza de um sono etílico? Difícil dizer.
Ele nasceu à frente de seu tempo. Na época errada, acredito. Por que ele combina com absinto e assim como a planta que deu origem a bebida de nome homônimo, se consumido em quantias excessivas pode causar convulsões e espasmos. Muitos espasmos.
Nasceu no lugar errado; deveria ter sido concebido na Paris do século XIX. Talvez entre os artistas, libertários e formadores de opinião. Ele combina com a cidade luz.
Companheiro de madrugadas, o menino que dorme de camiseta tem o dom das palavras. Tem mãos delicadas. É da escuridão. Quando muda a rotina, nunca volta pela manhã. Talvez acredite que o sono seja uma trilha solitária para outra dimensão onde a fogueira acesa no meio do campo de sonhos seja um território secreto. Já ocupado, possivelmente.
Um pós-impressionista não adepto ao celular. Ele não representa fielmente os preceitos da contemporaneidade. Quem diria, encaixa-se perfeitamente dentro de uma expressão artística. Faz-me lembrar a Art nouveau, a Belle Époque. Nascido em seu tempo, teria acompanhado a primeira exibição cinematográfica no Grand Café, espetáculo promovido pelos Irmãos Lumière.
Seria aceitável, entretanto, se tivesse vivido em São Paulo no ano de 1922. Mais um comparsa de Monteiro Lombato, Manuel Bandeira. Despertaria, anos mais tarde, uma paixão arrebatadora em Pagu, com quem dividiria muitos copos, lençóis e cigarros, para o azar de Oswald de Andrade e sorte de Tarsila do Amaral. Militante do Partido Comunista? Não sei. Talvez morresse jovem com tuberculose.
Ele, definitivamente, não pertence ao futuro previsto por Huxley. Não combina com ficção científica. É como uma peça que ora funciona, ora não funciona, na fria engrenagem da web 2.0. E, imagino eu, durma de camiseta para proteger a poesia. É isso mesmo! Ele dorme de camiseta simplesmente para proteger a poesia.
enviada por Debbie Drechsler
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